
Desde já o fim do milênio está sendo tudo, menos tedioso. Quando ainda não se acalmam os ecos do polêmico código identificador dos processadores Pentium III, descobre-se que a Microsoft também insere códigos identificadores nos arquivos do Word e do Excel. Os Estados Unidos da América Nortista liberalizam suas leis de exportação para software de encriptação, mas os celulares GSM continuam incorporando uma encriptação fraca. A Espanha se põe de cabeça na legislação sobre a assinatura eletrônica... e em seguida deriva para caduca moda do depósito das chaves. Atacantes desconhecidos derrubam os portais do Yahoo e da CNN mediante ataques de massa e o famoso "destruidor de parasitas" Cuartango continua encontrando uma falha de programação atrás da outra. E, enquanto o último dictamen do Parlamento Europeu sobre a Enfopol está ainda quente, reaparece um espectro no mais puro estilo Orwell denominado Echelon. ¡ Caramba!, com todas essa movimentação, ¿quem precisa do efeito 2.000?
O Echelon parece ter saído de alguma película tipo do "Inimigo Público" (na verdade os telejornais da Telecinco usam cenas da referida película em suas crônicas "echelonianas"). Sem dúvida é um sistema tão real quanto poderoso - e tão eficaz quanto desconhecido. Para resumir, digamos que o Echelon é um sistema de interceptação, classificação e avaliação das telecomunicações. Se fosse apenas isso, não se diferenciaria de outros esquemas similares postos em andamento pelos serviços de espionagem de todo o mundo. Todavia possui algumas características que o tornam único.
Pro primo, é internacional tanto em âmbito como em composição. O Echelon é formado por um "consórcio" de diversas nações: os EUAN, o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia. Cada um destes países tem um campo de atuação e compartilha com os outros membros do club suas descobertas. Este procedimento, além de assegurar u'a maior cobertura, permite contornar espinhosos problemas legais. Uma vez que a NSA norte-americana está proibida, por lei, de espionar dentro dos Estados Unidos da América Nortista, basta-lhe pedir a informação a seus colegas do Reino Unido ou do Canadá para obtê-la. Não costumam ocorrer muitos casos com a Espias S.A.. Parece estar funcionando bem e, além disso, dá bons dividendos a seus acionistas.
Pro secundo, o Echelon foi desenhado para se comportar como uma entidade inteligente. Não se limita a interceptar mensagens e retransmiti-las, já que o enorme volume de comunicações existente tornaria isso inviável. Por essa razão apelou-se para procedimentos informatizados de reconhecimento de voz e de contexto, e de busca de palavras. As mensagens fiscalizadas são cotejadas com um "dicionário" em busca de concordâncias. Se se pega alguma (digamos que u'a mensagem inclua as palavras Clinton e Assassinato), a mensagem seria enviado aonde fosse correspondente. É como uma rede de pesca inteligente, que apenas captura os peixes que lhe interessam. Claro que os peixes, ignorantes da existência da rede, continuam seu caminho, crendo-se a salvo.
Pro tertio, diferentemente de outros muitos sistemas, o Echelon foi desenhado especificamente para captar e processar grandes quantidades de informação em redes de transmissão CIVIS. Ou seja, se o Echelon está espionando comunicações comerciais e particulares não é porque nisso tenha se tornado ao depois do final da Guerra Fria; simplesmente, continua fazendo o trabalho para o qual foi desenhado. As redes de telecomunicações militares já têm seus espiões eletrônicos. O Echelon ocupa-se do filão das comunicações civis: telefonia fixa, celular, fax, Internet... Como dizem os norte-americanos "você dá o nome, mas quem tem sou eu eu".
Por certo o Echelon não é modesto: ele intercepta TUDO. Sua espinha dorsal é composta por um conjunto de estações em terra que se liga a uma rede de satélites de interceptação. A estação de Morwenstow (Reino Unido) se encarrega de coordenar os "grampos" dos satélites de comunicação Intelsat situados na Europa e nos oceanos Atlântico e Índico. Duas estações mais (Menwith Hill, Romênia, e Bad Aibling, Alemanha) se encarregam dos satélites não-Intelsat. No entanto o Echelon fuça tudo, não simplesmente os satélites. ¿Querem captar diretamente os sinais dos telefones celulares? Nada como um bom satélite que rastreie freqüências de microondas (apenas 150.000 milhões por satélite, uma bagatela). ¿É preciso "grampear" um cabo de telefonia submarina? Para isso temos o mini-submarino USS Parche (nome real). ¿Cabos de fibra ótica? Um pequeno receptor nos conversores opto-eletrônicos e pronto. ¿Comunicações pela Internet? "Não há problema". Tampouco existem tantos grandes furos. O mais incrível de tudo é que este gigantesco sistema de interceptação continue farejando o tráfego civil desde que foi concebido nos anos setenta. E se queixavam dos piratas informáticos. ¡Pois toma patente de corso!.
Não seria estranho que durante os anos de confronto entre Leste e Oeste tais excessos fossem quando menos tolerados. Mas agora que a Guerra Fria se desvanece na memória, não estranha a ninguém que a existência de "grampos" civis em grande escala seja cada vez mais fortemente criticada. ¿É necessário o Echelon hoje dia? Talvez não para acabar com "o império do mal", mas como dizem os próprios norte-americanos "se não está quebrado, não conserte". ¿Por que prescindir de um sistema que deu tão bons resultados? Talvez pudesse encontrar trabalho em outras guerras não declaradas, como a guerra contra as drogas... ou a guerra comercial. Nos últimos anos, diversas empresas norte-americanas obtiveram suculentos contratos graças a informações privilegiadas obtidas mediante interceptações do Echelon. Por exemplo:
EM 1993, O ECHELON INTERCEPTAVA QUALQUER MENSAGEM REFERENTE À PANAVIA OU AO TORNADO E A SUAS POSSÍVEIS VENDAS NO ORIENTE MÉDIO. EM 1994, A NSA CAPTOU CHAMADAS DE TELEFONE ENTRE O GOVERNO BRASILEIRO E A EMPRESA FRANCESA THOMSON. RESULTADO: UM SUBSTANCIOSO CONTRATO DE MAIS DE UM BILHÃO DE DÓLARES FOI FINALMENTE A PARA A NORTE-AMERICANA RAYTHEON... EMPRESA QUE TAMBÉM SE OCUPA DE DIVERSAS TAREFAS DE MANUTENÇÃO DO ECHELON. EM 1995, DIVERSAS INTERCEPTAÇÕES DE TELEFONE E FAX PERMITIRAM À BOEING E À MACDONNELL DOUGLAS VENCER O CONSÓRCIO EUROPEU AIRBUS E OBTER UM CONTRATO DE SEIS BILHÕES DE DÓLARES COM A ARÁBIA SAUDITA.
E com isso chegamos ao ponto filipino desta guerra: a "peseta" (ou melhor... o euro). A interceptação eletrônica auxilia na obtenção de segredos comerciais - e num mundo onde as grandes fusões e contratos têm cifras de dezenas de bilhões, os dividendos da Espias S.A. são substanciosamente literais. Existem rumores que os serviços secretos franceses têm feito espionagem industrial em benefício das empresas francesas - e por certo não são os únicos. Entretanto o Echelon constitui, diferentemente, o mais ambicioso e extenso sistema de interceptações eletrônicas civis jamais sonhado.
E disso a Europa não parece ter gostado. Já em setembro de 1.998, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução sobre o Echelon, ainda que muito descafeinada. Agora voltam à carga. Em fevereiro de 2.000 celebrou-se uma audiência sobre proteção de dados, sob os auspícios do PE (Parlamento Europeu - NOTA do tradutor), que incluía o Echelon como um de seus pontos de discussão. O que resta claro a seu respeito, eu não sei. No entanto é bom que o silêncio se rompa. Mas sobra o gosto amargo de saber que nossos governos não saem em defesa de nossos direitos à privacidade, mas sim na dos direitos das empresas celebrarem substanciosos contratos.
Durante décadas o Echelon violou nossa intimidade vez por outra. De fato falta contabilizar as perdas econômicas para que a União Européia entre em campo e lute pelas liberdades. "Tanto ganhas, tanto te protejo". Porém não sejamos tão duros e concedâmo-lhes nossos bem pensantes benefícios da dúvida. Seja qual for o motivo, o fim a que estão se movendo. Concedo especial mérito ao Parlamento Europeu, cuja comissão LIBE "se desmelingue" muito no tema.
Parece que o Echelon é, finalmente, considerado pela opinião pública à luz do dia - e que a conspiração de fato (que durante os anos noventa tentou construir um mundo "grandirmanesco") perde impulso. Como disse uma vez um general norte-americano, cercado por várias divisões chinesas durante a guerra de Coréia: "temos os inimigos à frente, temos os inimigos na retaguarda, temos os inimigos pelo flanco esquerdo e pelo flanco direito... ¡desta vez eles não nos escapam!" Não sei bem por que me lembrei dessa anedota agora. Todavia me foi agradável.
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